“Taxi Driver”: um retrato de loucura cinematográfica

Com Martin Scorsese nas bocas do mundo e Robert De Niro a receber algumas das melhores críticas da sua longa carreira, é boa oportunidade para recordar as maravilhas sangrentas de “Taxi Driver”. Além disso, este foi um dos filmes que mais influenciou o Joker de Todd Phillips.

Se o cinema da Nova Hollywood era um cinema de solidão e de loucura, então Travis Bickel é o seu santo padroeiro. O protagonista de “Taxi Driver” é uma alma perdida na entropia niilista de uma Nova Iorque enegrecida pela sua própria torpitude amoral. Ele é também um exemplo de autoisolamento, um homem que se vê superior aos demais e, no desespero indignado para com a realidade infernal, vê somente a violência como solução para a construção de um mundo melhor.

Muito do cinema americano dos anos 70 foi construído em volta de estudos glorificantes de figuras como esta. No entanto, “Taxi Driver” funciona quase como uma desmistificação cáustica desse paradigma. Nas mãos de Martin Scorsese e de Robert De Niro, não há dúvidas que Travis Bickel é um produto do mundo monstruoso em que vive, uma vida nascida da semente do ódio. Ele não é um herói, mesmo que assim se possa autointitular.

De tal modo “Taxi Driver” é um potente diagnóstico da sociedade americana dos anos 70 que Tennesse Williams, enquanto presidente do júri de Cannes, fez questão de sublinhar a importância do filme que acabou por ganhar a Palme d’Or. Ao mesmo tempo, ele também criticou a sua venenosa visão. Segundo Williams, violência produz violência e filmes como este, ao invés de funcionarem como uma denúncia, podem ser a exacerbação dessa mesma violência.

É certo que o cinema não deve ser uma arte marcada pelo ódio, mas há um considerável valor em filmes como “Taxi Driver”, dispostos a cristalizar as partes mais hediondas da condição humana.

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